Conecte-se conosco

Brasil

“Verdadeiro caixa do PCC”: Investigação aponta Deolane Bezerra como peça-chave na lavagem de dinheiro da facção

Advogada e influenciadora teria emprestado contas e estrutura empresarial para blindar R$ 27 milhões de origem ilícita; Justiça bloqueou bens e determinou prisão preventiva de outros cinco integrantes do esquema.

DEOLANE-PRESA-CANAL92AM

Reprodução/Instagram

A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa na manhã desta quinta-feira (21) durante a Operação Vérnix, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo em parceria com a Polícia Civil. A ação investiga um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado recursos do Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio de uma transportadora de fachada em Presidente Venceslau (SP) .

Deolane foi detida em sua residência em Alphaville, na Grande São Paulo, um dia após retornar da Itália, onde havia passado as últimas semanas. Seu nome chegou a ser incluído na Difusão Vermelha da Interpol antes do retorno ao Brasil .

“Verdadeiro caixa da facção”

De acordo com os autos da investigação, a influenciadora funcionava como um “verdadeiro caixa do PCC” , ocultando valores e permitindo sua circulação com aparência de legalidade. A expressão consta do relatório policial que fundamentou o pedido de prisão preventiva .

Segundo os investigadores, Deolane não integrava a cúpula da facção, mas emprestava sua estrutura empresarial e sua imagem pública para dar aparência lícita a recursos oriundos do crime organizado . Ela atuaria na chamada fase de integração da lavagem de dinheiro — a mais avançada, em que valores ilícitos são reinseridos no sistema financeiro formal.

Depósitos fracionados e vínculos com o PCC

A investigação aponta que, entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505,00 em sua conta física por meio de depósitos fracionados abaixo de  10 mil, técnica conhecida como “smurfing” , usada para burlar mecanismos de controle financeiro . O intermediador era Everton de Souza (vulgo “Player”), apontado como operador financeiro da organização e também preso na operação .

Além disso, quase 50 depósitos no valor total de R$ 716 mil foram feitos a duas empresas de Deolane por uma firma que se apresenta como banco de crédito. O responsável formal por essa empresa é um homem residente na Bahia com renda de aproximadamente um salário mínimo por mês, incompatível com os valores movimentados .

A polícia não encontrou nenhuma prestação de serviço advocatício ou atividade lícita que justificasse os repasses. As contas a débito da influenciadora e de suas empresas também não registraram pagamentos compatíveis com os créditos recebidos .

Conexão com a família de Marcola

As investigações tiveram início em 2019, quando a Polícia Penal apreendeu bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. Os documentos mencionavam ordens internas da facção e, em um trecho, citavam uma “mulher da transportadora” que levantava endereços de agentes públicos para subsidiar ataques .

A partir dessa pista, os investigadores chegaram à Lopes Lemos Transportes (ou Lado a Lado Transportes) , empresa de fachada usada como braço financeiro do PCC. Com a apreensão do celular do operador Ciro Cesar Lemos (foragido), foram encontrados comprovantes de depósitos diretos para contas de Deolane e de Everton de Souza .

Segundo a investigação, os valores provenientes da transportadora eram destinados a Marcola, seu irmão Alejandro Camacho e seus familiares. A sobrinha do líder do PCC, Paloma Sanches Herbas Camacho, foi presa em Madri (Espanha). Outro sobrinho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, está foragido na Bolívia .

Bloqueios e outros alvos

A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome de Deolane — montante que ela não conseguiu comprovar origem—, além do sequestro de 39 veículos avaliados em mais de 8 milhões e bloqueios financeiros que somam R$ 357,5 milhões .

A operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva. Além de Deolane e Everton de Souza (Player), foram alvos: Marcola e Alejandro Camacho (já presos na Penitenciária Federal de Brasília e comunicados sobre a nova ordem), Paloma Sanches Herbas Camacho (presa na Espanha) e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho (foragido na Bolívia) .

Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra o influenciador Giliard Vidal dos Santos (considerado filho de criação por Deolane) e um contador .

O que diz a defesa

Em nota divulgada por sua irmã, a advogada Daniele Bezerra, a defesa afirmou que a prisão “nasce cercada de ilações, narrativas e perseguições”. “No Brasil, muitas vezes primeiro se expõe, se destrói a imagem e se condena perante a opinião pública… para só depois buscar provas que sustentem aquilo que foi dito. E isso é grave”, declarou .

A nota acrescenta: “Não se pode admitir que a Justiça seja usada como espetáculo, nem que pessoas sejam tratadas como culpadas antes do devido processo legal. Prisão não pode ser instrumento de pressão, marketing ou vingança social” .

Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, afirmou que está se “inteirando dos fatos” .

Esta é a segunda prisão da influenciadora. Em setembro de 2024, ela foi detida em Pernambuco na Operação Integration, que investigava jogos ilegais e lavagem de dinheiro .