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Brasil

Série da Globo gravada na China gera debate sobre independência editorial e parceria com estatal do Partido Comunista

Nas redes sociais, críticos, comentaristas políticos e usuários passaram a questionar se a cobertura estaria funcionando como uma vitrine positiva para o governo de Xi Jinping sem abordar temas considerados sensíveis.

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Reprodução

A estreia da série “Entre 2 Mundos”, exibida no Fantástico no último domingo (27), acendeu um debate nas redes sociais que vai além da produção em si: a parceria do Grupo Globo com o China Media Group, organismo de comunicação diretamente vinculado ao governo chinês, voltou ao centro das críticas.

A série, composta por seis episódios e apresentada pelo repórter Felipe Santana diretamente da China, também terá espaço no Jornal Nacional. A proposta declarada da emissora é oferecer um “olhar brasileiro” sobre o país asiático, em contraste com a abordagem adotada pela imprensa norte-americana. O cinegrafista Lucas Luz também foi deslocado para participar da produção.

O que gerou a reação

Nas redes sociais, críticos, comentaristas políticos e usuários passaram a questionar se a cobertura estaria funcionando como uma vitrine positiva para o governo de Xi Jinping sem abordar temas considerados sensíveis. Entre os assuntos apontados como ausentes na série estão a situação de Hong Kong, denúncias internacionais sobre direitos humanos, vigilância em massa, censura estatal e restrições à liberdade de expressão na China.

A crítica central é que a produção destacaria avanços econômicos, tecnológicos e a modernização chinesa sem contrabalançar com um olhar crítico sobre o regime.

A parceria que está no centro do debate

O ponto que amplificou a controvérsia foi a lembrança, por parte de internautas, de um memorando de cooperação assinado em 2019 entre o Grupo Globo e o China Media Group. O acordo prevê colaboração em produção de conteúdo, intercâmbio de programas, transmissões esportivas, entretenimento e desenvolvimento tecnológico nas áreas de 5G, 4K e 8K.

O que torna o acordo sensível é o perfil do parceiro: o China Media Group é diretamente ligado ao aparato estatal chinês. Seu atual presidente, Shen Haixiong, também ocupa o cargo de vice-diretor do Departamento de Comunicação do Comitê Central do Partido Comunista Chinês — o que, para críticos, levanta dúvidas sobre a independência editorial de conteúdos relacionados à China produzidos ou exibidos pela emissora brasileira.

Comparações internacionais

A repercussão ganhou novo fôlego após o advogado Frederico Junkert trazer ao debate um caso investigado nos Estados Unidos. O exemplo citado foi o da ex-prefeita Eileen Wang, que renunciou ao cargo em uma cidade da Califórnia após admitir ter promovido propaganda favorável ao governo chinês sob orientação de autoridades de Pequim. Segundo autoridades americanas, Wang teria atuado entre 2020 e 2022 em ações de influência ligadas ao governo chinês.

O caso passou a ser usado por críticos nas redes como paralelo ao que consideram ser o avanço de conteúdos simpáticos à China em veículos de comunicação ao redor do mundo.

O outro lado

A Globo não se manifestou publicamente sobre as críticas até o fechamento desta matéria. A emissora, ao apresentar a série, defendeu a proposta como jornalismo internacional independente, com perspectiva brasileira. Defensores da produção argumentam que coberturas sobre a China não precisam ser necessariamente hostis para serem legítimas, e que o olhar plural sobre o país asiático é válido do ponto de vista jornalístico.

O debate, no entanto, continua aberto, e a série tem ainda cinco episódios pela frente.