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Política

“Tesouraço” de Flávio pode eliminar 2,2 milhões de empregos e levar o país à recessão, aponta Dieese

Estudo do Departamento Intersindical, divulgado a três dias do segundo turno, estima que o corte de R$ 200 bilhões reduziria o PIB em 1,55% em 2027

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Arte: Canal92am

O ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões prometido pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) , apelidado de “tesouraço”, pode eliminar aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho e provocar uma retração de 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. A estimativa consta em estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) , entidade mantida por centrais sindicais, divulgado nesta quinta-feira (22), a três dias do segundo turno.

O levantamento também projeta uma queda de R$ 68,7 bilhões na massa salarial e de 46,8 bilhões na arrecadação de impostos no primeiro ano de implementação das medidas. Segundo o Dieese, essa perda de receita consumiria cerca de 40% da economia bruta obtida com os cortes, o que, na prática, comprometeria o próprio objetivo fiscal anunciado pela campanha de Flávio.

Como o estudo foi construído

Como a equipe econômica do candidato ainda não detalhou quais despesas seriam cortadas, o Dieese partiu de uma hipótese: o congelamento das despesas primárias em termos reais, corrigidas apenas pela inflação estimada de 4,5% ao ano. Com isso, chegou a um esforço fiscal de R$ 194 bilhões, equivalente a cerca de 1,5% do PIB.

Para viabilizar a estimativa, o instituto distribuiu o ajuste de forma hipotética: 51% recairiam sobre transferências de renda (Previdência, abono salarial, seguro-desemprego e BPC), 17% sobre despesas com pessoal e 32% sobre as demais despesas. A composição é decisiva para o resultado porque os multiplicadores fiscais são distintos: cada R$ 1 em transferências de renda gera 2,68 no PIB, contra R$ 0,74 dos gastos com pessoal. Por isso, as transferência responderiam por da perda estimada de 203,1 bilhões na atividade econômica.

Cenários: do crescimento pífio à recessão

O Dieese simulou dois cenários para 2027. No otimista, que usa a projeção de crescimento de 2,46% da PLOA, o ajuste reduziria a expansão da economia para 0,91%. Seriam criados 1,14 milhão de postos de trabalho, abaixo dos 1,33 milhão necessários por ano para absorver o crescimento da população economicamente ativa — o que faria o desemprego subir.

No pessimista, baseado na projeção de 1,4% do Boletim Focus, do Banco Central, o PIB recuaria 0,15%, levando o país à recessão. Haveria perda líquida de cerca de 271 mil vagas e um déficit superior a 1,5 milhão de oportunidades em relação à demanda por trabalho. A taxa de desocupação poderia chegar a entre 6,5% e 7% já no primeiro ano, e o número de desempregados passaria de 5,8 milhões para 7,4 milhões.

O diagnóstico do Dieese e a crítica à PEC

Para o instituto, o diagnóstico que embasa a proposta está equivocado. O crescimento recente da dívida pública decorreria sobretudo do peso dos juros, e não de um suposto descontrole das despesas primárias. O Dieese argumenta que despesas com menor efeito multiplicador — como juros da dívida e incentivos fiscais — ficaram fora do ajuste. Além disso, avalia que viabilizar o “tesouraço” exigiria mudanças nas vinculações constitucionais, como o piso previdenciário ligado ao salário mínimo, o BPC e os mínimos de saúde e educação, o que explicaria a opção por uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).

O outro lado: o que diz a campanha de Flávio

A campanha de Flávio Bolsonaro sustenta que o ajuste de R$ 200 bilhões — ou 1,5% do PIB — será feito sem reduzir benefícios sociais. O senador prometeu extinguir pelo menos dez ministérios, rever o arcabouço fiscal, reduzir supersalários e cargos comissionados, e utilizar imóveis públicos para gerar receita. Em sabatina ao Jornal Nacional, no último dia 16, Flávio afirmou que o corte não atingirá programas sociais, mas não detalhou de onde sairá a economia.

A coordenadora da equipe econômica da campanha, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, declarou em agosto à GloboNews que o plano prevê um ajuste de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões. Em agosto, o candidato também associou o “tesouraço” à redução da carga tributária, à desburocratização e à diminuição do número de ministérios.

A ofensiva da campanha de Lula

Do outro lado, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para explorar o “tesouraço” na reta final. Em vídeo divulgado nesta terça-feira (20), Alckmin questiona quais despesas seriam atingidas e compara a proposta ao modelo do argentino Javier Milei, citando mudanças em aposentadorias, restrições ao seguro-desemprego e redução de programas de distribuição de medicamentos.

“Flávio Bolsonaro disse que pretende cortar quase R$ 200 bilhões do Orçamento. A pergunta que ele nunca responde é de onde pretende cortar esse dinheiro. A equipe econômica dele já disse que quer copiar as políticas adotadas na Argentina”, afirmou Alckmin.

A estratégia petista é associar o ajuste à perda de direitos e benefícios. “Apesar de prometer esse tesouraço e dizer que a Argentina é o modelo a ser seguido, Flávio jura de pé junto que não pretende cortar benefícios sociais. E é por isso que a conta não fecha de jeito nenhum”, completou o vice-presidente.

O pano de fundo: dívida em alta

O debate ocorre em um momento de deterioração das contas públicas. A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, o equivalente a R$ 11,1 trilhões — o maior nível desde março de 2021, segundo o Banco Central. No ano, houve avanço de 4,2 pontos percentuais, impulsionado principalmente pelos juros nominais.

Os dois candidatos reconhecem o problema, mas propõem caminhos distintos: Lula defende manter o arcabouço fiscal e crescer para arrecadar mais; Flávio promete cortar gastos e reduzir impostos.

Limitações do estudo

O próprio Dieese reconhece limitações no exercício. A composição do corte foi simplificada para viabilizar a estimativa, e a Matriz Insumo-Produto usada é um modelo estático, que não incorpora uma eventual queda dos juros após o ajuste. A entidade argumenta, porém, que os efeitos da política monetária levam de seis a nove meses para se manifestar e dificilmente compensariam os cortes ainda em 2027. O estudo afirma que os resultados podem ser revistos caso a campanha de Flávio divulgar mais detalhes do plano.

*Com informações de UOL