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Malévola relata humilhação e abuso em prisão no Egito: “Tive que ficar pelada”

Influenciadora trans brasileira, de 22 anos, diz que foi obrigada a se despir diante de policiais e que só passou a ser tratada “bem” depois que os agentes viram sua vagina

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Reprodução

A influenciadora digital Malévola Alves, de 22 anos, fez um relato contundente sobre os dois dias em que ficou detida no Egito, ao lado da amiga Bruna Mercatelli. As duas, ambas mulheres trans, foram presas na última terça-feira (20), em Alexandria, sob a acusação de “comportamento obsceno” e “assédio” em vídeos gravados em espaços públicos. Liberadas na manhã de quarta-feira (21) após o pagamento de fiança, elas retornaram ao Brasil na noite desta quinta-feira (22).

Em publicações nas redes sociais e em um vídeo gravado durante uma escala no Marrocos, Malévola — que realizou a cirurgia de redesignação sexual em 2023 — afirmou que foi obrigada a ficar nua diante dos policiais. “Eu tive que ficar pelada e, quando viram a minha vagina, começaram a me tratar bem. Eu disse que não era trans” , declarou. Segundo ela, a prisão teria ocorrido não apenas pelos vídeos, mas porque o grupo era formado por mulheres trans. “Eles deixaram claro que a prisão foi porque éramos trans” , afirmou, contestando a versão oficial das autoridades egípcias.

“Fui abusada por diversos policiais”

A influenciadora, que acumula mais de 2 milhões de seguidores e ganhou notoriedade nas redes por vídeos de humor ácido, também alegou ter sido abusada por agentes durante o período em que permaneceu na delegacia. “Vocês não sabem o que passamos naquela delegacia e agora estão rindo. Vocês são podres” , escreveu no X (antigo Twitter). Em outro trecho, relatou o impacto psicológico da experiência: “Só Deus sabe o que eu passei. Eu tô com crise de pânico, tenho ansiedade e depressão. Chegando ao Brasil, vou direto ao médico” .

Bruna Mercatelli, que também se manifestou, contou que as duas passaram a madrugada em uma penitenciária após prestarem depoimento e assinarem documentos. Segundo ela, parte do período foi cumprido sem comida e água, e o grupo foi levado ao aeroporto em um camburão fechado.

O caso e a legislação egípcia

Malévola e Bruna foram detidas após a divulgação de vídeos gravados nas ruas de Alexandria. O Ministério do Interior do Egito afirmou que as imagens mostravam as duas fazendo gestos de conotação sexual e abordando pessoas em espaços públicos. A defesa da influenciadora, no entanto, sustenta que a prisão teve motivação transfóbica.

O Egito não criminaliza explicitamente a transexualidade, mas, segundo organizações de direitos humanos, o país utiliza leis de “moralidade pública” e de “proteção aos valores familiares” para perseguir pessoas LGBTQIA+. Uma lei de 1961, originalmente voltada ao combate à prostituição, e a Lei de Crimes Cibernéticos de 2018 são frequentemente aplicadas nesses casos. A Human Rights Watch (HRW) documenta que mulheres trans no país já relataram detenções em celas masculinas e tratamentos incompatíveis com sua identidade de gênero.

Libertação e retorno

A soltura de Malévola e Bruna ocorreu após o pagamento de fiança. Os valores divergem entre as fontes: a defesa e a CNN Brasil citam entre 20 mil e 40 mil libras egípcias, o equivalente a aproximadamente R$ 2mil a 4 mil. Já outras reportagens mencionam cerca de R$ 10 mil. O advogado da influenciadora, Jonatha Carvalho Matos, confirmou que o celular dela não foi devolvido pelas autoridades egípcias.

O Itamaraty informou, por meio da Embaixada do Brasil no Cairo, que acompanha o caso desde a noite de 20 de outubro e prestou assistência consular às influenciadoras e a seus familiares, com orientação jurídica e interlocução com as autoridades locais. Malévola desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, por volta das 22h desta quinta-feira, e afirmou que buscará atendimento médico imediato.