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Colapso do Ueno Bank: Paraguai mergulha em crise institucional, e presidente Santiago Peña enfrenta pedido de impeachment

Banco digital ligado ao entorno do presidente faliu da noite para o dia, deixando 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro e US$ 850 milhões em fundos públicos, incluindo aposentadorias, bloqueados

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Reprodução

O Paraguai vive a maior crise institucional de sua história recente. A quebra do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país, deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro e expôs uma teia de relações políticas que agora ameaça o mandato do presidente Santiago Peña (Partido Colorado). Nesta quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados analisa um pedido de impeachment contra o presidente e seu vice, Pedro Alliana, enquanto as ruas de Assunção seguem ocupadas por correntistas desesperados e a economia real já sente os primeiros impactos.

O colapso de um gigante digital

A dimensão da crise começou a se desenhar na madrugada de terça-feira (3). Clientes do Ueno relataram um súbito “ecrã em branco” no aplicativo do banco, que passou a exibir uma única mensagem: “Não podemos mostrar o saldo”. Pouco depois, o Banco Central do Paraguai (BCP) divulgou um comunicado contundente: a instituição estava sob intervenção e iniciava seu processo de liquidação.

O motivo, segundo a autoridade monetária, foi um colapso crítico no índice de solvabilidade do banco, que caiu para menos da metade do mínimo legal exigido. O Ueno — que se orgulhava de ter “sepultado a burocracia” e crescido a um ritmo vertiginoso em apenas três anos — era considerado insolvente e incapaz de honrar seus compromissos.

O que estava em jogo: dinheiro público e aposentadorias

O colapso do Ueno não afetou apenas poupanças privadas. O banco administrava entre US$ 800 milhões e 850 milhões em recursos públicos, incluindo fundos do Instituto de Previsión Social (IPS) — a seguridade social paraguaia, responsável pelas aposentadorias e pela cobertura de saúde dos trabalhadores. O IPS mantinha cerca de US$ 355 milhões investidos na instituição, e o banco gerenciava o pagamento de pensões de aproximadamente 32 mil aposentados.

A exposição do Estado era tamanha que o banco se tornou o principal alvo de questionamentos sobre a independência da supervisão bancária. Relatórios de supervisão já apontavam operações de crédito a empresas ligadas ao Grupo Vázquez — controlador do Ueno — em condições preferenciais e sem garantias suficientes, em um montante que chegava a US$ 146 milhões. Entre janeiro e setembro de 2026, o incremento de fundos públicos depositados no banco superou US$ 206 milhões.

O terremoto político e o impeachment

A crise financeira rapidamente se transformou em uma crise política de proporções inéditas para o governo de Santiago Peña. A oposição, liderada por deputados dissidentes da base governista, apresentou um pedido de impeachment contra o presidente e seu vice, com 35 assinaturas, sob a acusação de “mau desempenho de suas funções”, “conflito de interesses” e questionamentos sobre a evolução de seu patrimônio.

O que tornou o cenário ainda mais grave para Peña foi a posição do próprio Partido Colorado. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira (5), o ex-presidente Horacio Cartes — mentor político de Peña e líder da legenda — anunciou o apoio ao julgamento político. “Acompanhamos o julgamento político ao presidente da República, Santiago Peña, com o objetivo de reencaminhar a institucionalidade da República”, declarou Cartes, acrescentando que o partido não ficará “do lado do latrocínio dos fundos públicos, privados e dos aposentados”.

A votação na Câmara dos Deputados, que tem 80 membros, precisa de 53 votos para autorizar a abertura do processo. Se aprovado, o caso segue para o Senado, onde são necessários 30 votos entre 45 senadores para destituir o presidente.

Prisões e cerco judicial

Enquanto o Congresso se movimenta, o cerco judicial se fechou sobre os executivos do banco. Na noite de terça-feira (3), a Fiscalía (Ministério Público) ordenou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes do Ueno e de empresas do Grupo Vázquez. Entre os detidos estão o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o vice-presidente e controlador do grupo, Federico Miguel Vázquez Villasanti, de 36 anos.

As suspeitas incluem conduta indevida em situação de crise, lesão de confiança e violação da obrigação de manter livros contábeis — crimes que, se comprovados, podem levar a penas severas. A promotora Nancy Salomón afirmou que recebeu do Banco Central um documento de 200 páginas detalhando as irregularidades.

O impacto na economia real e o desespero nas ruas

Nas ruas de Assunção, a crise se traduziu em desespero. Milhares de correntistas e aposentados protestaram em frente às agências fechadas e à residência oficial do presidente, exigindo a liberação de seus recursos. Houve relatos de confrontos com a polícia quando parte dos manifestantes tentou avançar em direção ao Congresso. Em meio à multidão, uma jovem, em lágrimas, chamou Peña de “ladrão” e pediu que as pessoas fossem às ruas.

O impacto na economia real foi imediato. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) informou que as grandes superfícies comerciais registraram uma queda de 35% nas vendas desde o primeiro dia da crise, efeito que se manteve no dia seguinte. O setor de transporte por aplicativo também foi duramente atingido, com motoristas relatando redução na demanda e dificuldades para processar pagamentos, já que a plataforma MUV pertence ao próprio holding do Ueno.

O futebol também parou

O Ueno Bank não era apenas um banco; era o principal patrocinador do futebol paraguaio, com contratos com os dois maiores clubes do país, Cerro Porteño e Olimpia, além de dar nome ao estádio Defensores del Chaco. A quebra da instituição atingiu em cheio jogadores e clubes. A Conmebol chegou a ter US$ 14 milhões depositados no banco.

Jogadores da seleção paraguaia, incluindo o capitão Gustavo Gómez, divulgaram uma carta exigindo que o governo e a Justiça atuem “de maneira imediata, transparente e sem distinção”. “Não se pode titubear quando está em jogo o esforço da gente decente”, afirmaram. Pelo menos dez jogadores da seleção mantinham contas no Ueno, com economias que, somadas, chegavam à “casa dos oito dígitos em dólares”.

O que acontece agora

O Banco Central do Paraguai anunciou que fará um adiantamento da garantia do Fundo de Garantia de Depósitos aos clientes do Ueno, cobrindo até 40 salários mínimos (cerca de US$ 38 mil) por pessoa, valor suficiente para ressarcir cerca de 97% dos correntistas. O pagamento começaria em até 24 horas e não poderia exceder cinco dias úteis.

No entanto, a garantia não cobre a totalidade dos depósitos de grandes poupadores nem os US$ 850 milhões em fundos públicos, cuja devolução ainda depende de um projeto de lei de emergência que o governo negocia com o Congresso. Enquanto isso, a Fitch rebaixou o rating do Ueno Bank para “D” (default), e o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo.

A grande incógnita é o futuro político de Santiago Peña. Mesmo que o impeachment não prospere, o presidente sai profundamente fragilizado, com seu próprio partido dividido e a economia do país — que vinha crescendo em ritmo robusto — agora paralisada pelo medo e pela desconfiança. O Paraguai, que se apresentava como um “íman para o capital estrangeiro”, enfrenta agora o desafio de reconstruir a confiança em suas instituições.