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Eleições nos EUA: Democratas impõem derrota a Trump e conquistam Câmara e Senado

Partido Republicano perde o controle das duas casas do Congresso pela primeira vez desde 2018; democratas viram cadeiras em redutos conservadores como Texas, Ohio e Kansas, e presidente reage com ameaça de veto e ataques a aliados

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Getty Images

O Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato (midterms) realizadas na terça-feira (3), impondo uma derrota contundente ao presidente republicano Donald Trump e ao seu partido. A projeção, consolidada na madrugada desta quarta-feira (4), devolve aos democratas o controle total do Congresso pela primeira vez desde 2018.

A virada no Senado

No Senado, onde estavam em disputa 35 das 100 cadeiras, os democratas precisavam de um ganho líquido de quatro assentos para garantir a maioria. Conquistaram sete: Maine, Ohio, Kansas, Texas, Iowa, Carolina do Norte e Carolina do Sul, alcançando 54 cadeiras contra 44 dos republicanos, com duas vagas ainda em apuração.

A vitória em estados historicamente republicanos foi o símbolo da onda azul. No Texas, o democrata James Talarico, professor de 38 anos, derrotou o procurador-geral Ken Paxton, tornando-se o primeiro democrata eleito ao Senado pelo estado desde 1988. Na Carolina do Sul, a pediatra Annie Andrews derrotou Darline Graham, que ocupava a cadeira herdada do irmão, o falecido senador Lindsey Graham, em um estado que Trump venceu por quase 18 pontos em 2024.

Em Ohio, o ex-senador Sherrod Brown recuperou a cadeira que havia perdido em 2024, derrotando o republicano Jon Husted e consolidando uma das vitórias mais simbólicas da noite. A onda democrata também avançou sobre o Kansas, que não elegia um senador democrata há quase um século, e sobre o Maine, onde Troy Jackson derrotou a veterana Susan Collins.

Maioria confortável na Câmara

Na Câmara dos Representantes, onde todas as 435 cadeiras estavam em disputa, os democratas asseguraram a maioria absoluta, superando as 218 necessárias. As projeções mais atualizadas indicavam entre 224 e 231 assentos democratas, contra 139 a 144 republicanos, com dezenas de distritos ainda pendentes. O partido virou cadeiras em estados como Carolina do Norte, Kentucky, Pensilvânia e Colorado, aproveitando o desgaste da gestão Trump.

Conquistas históricas

A eleição também produziu marcos inéditos. O democrata Abdul El-Sayed foi eleito no Michigan como o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira no Senado dos EUA. Na disputa pelos governos estaduais, os democratas confirmaram 28 governadores, contra 20 republicanos, com destaque para a vitória de Gina Hinojosa no Texas sobre Greg Abbott, encerrando mais de três décadas de domínio republicano no estado.

A reação de Trump: do reconhecimento ao “Sr. Veto”

O presidente Donald Trump reagiu de forma ambivalente. Em entrevista ao The New York Times, afirmou estar “absolutamente disposto a aceitar” o resultado e disse que buscará acordos com os democratas: “Vamos trabalhar com eles. Provavelmente chegaremos a algum entendimento”. Em conversa com a Fox News, chegou a admitir que os democratas “fizeram um bom trabalho”.

A trégua, porém, durou pouco. Horas depois, Trump publicou nas redes sociais a imagem de um boné vermelho com a palavra “VETO”, antecipando o uso do poder presidencial para bloquear projetos aprovados pelo Congresso democrata. “Depois de alguns meses de vetos, eles vão ligar e perguntar como fazer as coisas andarem. E vamos trabalhar juntos. Eu tenho o poder de veto”, declarou. O presidente também atacou aliados derrotados, chamando o governador do Texas, Greg Abbott, de “RINO” (sigla pejorativa para “republicano só no nome”) e culpando a Fox News pelas perdas.

Por que os democratas venceram

A onda azul foi impulsionada por dois fatores principais, segundo analistas e pesquisas de boca de urna: a insatisfação com a economia, especialmente o custo de vida e o preço da gasolina, e a oposição à guerra contra o Irã, iniciada por Trump em fevereiro, que provocou alta nos combustíveis. Metade dos eleitores disse ver as midterms como uma oportunidade de reprovar o presidente, e 70% queriam que o Congresso oferecesse mais contrapesos à Casa Branca.

O próprio Trump reconheceu parcialmente o impacto do conflito: “Acho que parte foi o Irã”, disse à Fox News, antes de completar que os eleitores “provavelmente não estavam dispostos a arcar com as consequências de curto prazo de pagar mais pela gasolina”.

O que muda

Com o controle das duas casas, os democratas podem bloquear a agenda legislativa de Trump, abrir investigações sobre seu governo e sua família e forçar o presidente a negociar ou a governar por decreto e veto. O resultado também enfraquece politicamente Trump dentro do próprio Partido Republicano, às vésperas da corrida presidencial de 2028.

O ex-presidente Barack Obama resumiu o recado das urnas em uma rede social: o povo americano “deseja uma política que una as pessoas, em vez de dividi-las”. A apuração segue em estados como Alasca, onde o resultado do Senado ainda pode levar dias para ser definido.