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Amazonas

Estudo revela civilização de até 3 milhões de pessoas escondida sob a floresta amazônica

Cientistas identificaram 396 geoglifos no Acre e sul do Amazonas; estudo na Nature mostra que povo Aquiry ocupou região entre 100 e 300 d.C., com construções maiores que 15 campos de futebol

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Reprodução

Um grupo de pesquisadores brasileiros e finlandeses confirmou que centenas de estruturas de terra encontradas na fronteira entre o Acre e o Amazonas são obra de uma civilização antiga que ocupou a Amazônia muito antes da chegada dos europeus. O estudo, publicado nesta quarta-feira (29) na revista científica Nature, mostra que essas construções não são formações naturais, mas sinais de que uma sociedade organizada viveu ali, com divisão de trabalho, planejamento e conhecimento suficiente para erguer obras que resistem até hoje, escondidas pela mata.

Batizada pelos pesquisadores de civilização Aquiry, esse povo construiu recintos em formato geométrico, cercados por valas e muretas de terra, que serviam como espaços de encontro, celebração e decisão política para comunidades espalhadas pela floresta. Não são vilarejos comuns nem fortificações — tudo indica que eram locais de reunião, usados periodicamente por diferentes grupos que viviam nas proximidades.

A descoberta eleva para 432 o número total de geoglifos mapeados na região, sendo que 396 nunca haviam sido documentados. Antes, apenas 36 estruturas do tipo eram conhecidas. As construções variam de poucos metros a quase 50 hectares — a maior delas equivale a mais de 15 campos de futebol.

Como as construções foram descobertas

Até pouco tempo atrás, encontrar esse tipo de estrutura dependia de fotos de satélite, o que só funcionava em áreas onde a floresta já havia sido derrubada. A grande limitação é que a maior parte da Amazônia continua coberta por mata fechada, escondendo o que existe no chão.

Para resolver esse problema, a equipe sobrevoou a região usando uma tecnologia de escaneamento a laser conhecida como LiDAR (Light Detection and Ranging), capaz de atravessar as copas das árvores e mapear o solo por baixo delas, mesmo com a floresta intacta. Os pesquisadores percorreram mais de 4.430 quilômetros quadrados, incluindo os arredores de Rio Branco, Lábrea, Boca do Acre e Carauari. O resultado foi a descoberta de centenas de construções que nunca haviam sido vistas antes.

Uma civilização maior do que se imaginava

Com essas novas descobertas, os pesquisadores triplicaram a estimativa do território ocupado por essa civilização, que hoje se estende por uma faixa de cerca de 183 mil quilômetros quadrados — uma área que vai do interior do Acre até partes da Bolívia e do Peru. O número total de construções também aumentou de forma expressiva. Segundo os cientistas, os 432 geoglifos mapeados até agora devem ser uma pequena proporção de mais de 20 mil outros que devem existir no território.

Isso levou a equipe a rever a estimativa de quantas pessoas viveram ali no auge dessa sociedade, por volta dos anos 100 a 300 depois de Cristo. Segundo o novo cálculo, essa população pode ter chegado a até 3 milhões de pessoas. Para efeito de comparação, o Acre atual, um estado inteiro, tem hoje pouco menos de 1 milhão de habitantes.

Os pesquisadores chegaram a esse número calculando a quantidade de mão de obra necessária para erguer as estruturas, considerando que os construtores não tinham ferramentas de metal nem animais de carga. Uma comunidade de aproximadamente 300 pessoas, incluindo cerca de 60 homens adultos aptos para o trabalho, daria conta de criar uma dessas estruturas no prazo de um ano.

Geometria monumental na floresta

Os geoglifos incluem praças quadradas, circulares e octogonais. Para criar esses espaços monumentais, os construtores escavaram trincheiras de até 13 metros de largura e 5 metros de profundidade, formando muretas ao redor. O geógrafo brasileiro e coautor do estudo Alceu Ranzi, que passou 25 anos estudando as estruturas, resume a façanha: “Enquanto o Pitágoras estava lá na Grécia, fazendo seu teorema […] os acrianos antes do Acre estavam fazendo geometria monumental”.

Por que essa descoberta importa

O achado reforça uma ideia que vem ganhando força entre arqueólogos nos últimos anos: a de que a Amazônia não era uma floresta intocada antes da chegada dos europeus, mas um território habitado por sociedades complexas, capazes de moldar a paisagem ao seu redor. Os pesquisadores encontraram sinais de que essas comunidades cultivavam a terra, manejavam árvores frutíferas e cuidavam do solo de forma que ainda hoje influencia a fertilidade e a biodiversidade da região.

Segundo a geóloga Mayara Fraeda, professora da Universidade Federal do Amazonas, “essas terraplenagens são evidências de planejamento e organização da paisagem, mostrando que esses povos modificavam o ambiente de forma estruturada”. Ela acrescenta que “o LiDAR vem se mostrando uma ferramenta robusta, com inúmeras aplicações, e tem permitido identificar estruturas antes escondidas pela floresta, ampliando significativamente nosso conhecimento sobre a ocupação humana da região”.

Se descobertas parecidas forem confirmadas em outras partes da floresta amazônica, o número de pessoas que viveram na região antes da colonização pode ser maior do que qualquer estimativa feita até hoje — o que também deve mudar a forma como cientistas pensam o papel histórico da Amazônia no clima do planeta.