Amazonas
Vídeo mostra viatura da PM no prego e morador critica gestão de Cidade: “R$ 38 mil por mês, é uma verdadeira mamata”
Imagens flagraram veículo imobilizado por pane; contrato de R$ 6,6 milhões com empresa da família do governador é alvo de investigação do MP-AM
Reprodução
Um vídeo que circula nas redes sociais desde a última quarta-feira (12) escancarou a precariedade das viaturas utilizadas pela Polícia Militar do Amazonas (PMAM) e relembrou a polêmica sobre os contratos milionários firmados entre o Governo do Estado e empresas ligadas à família do governador Roberto Cidade (União Brasil). As imagens mostram uma viatura da PM parada na rua por pane mecânica.
Revoltado com a cena, um morador das proximidades gravou o flagrante e fez duras críticas ao custo dos veículos alugados:
“Olha aí os carros alugados na empresa do governador, olha aí parando, dando prego na rua. R$ 38 mil por mês em uma viatura dessa é uma verdadeira mamata, enquanto a gente fica sem segurança.”
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O desabafo do morador mostra uma realidade que vem sendo questionada nos bastidores da política amazonense: o alto custo dos contratos de locação de veículos para a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) e a qualidade questionável dos serviços prestados.
Contrato de R$ 6,6 milhões com empresa da família
De acordo com informações do Portal AM1, em maio de 2025, a SSP-AM firmou o Contrato nº 07/2025 com a Navegação Cidade Ltda no valor de R$ 6,6 milhões para a locação de veículos tipo passeio e utilitários, com quilometragem livre, combustível incluso e sem motorista.
O contrato, com vigência de 12 meses, prevê o pagamento de R$ 557.750,00 por mês pela locação de 97 veículos do modelo Tracker 1.2 Turbo Premier. Os veículos já foram entregues e o contrato se estende até junho de 2026.
A Navegação Cidade Ltda tem como sócios Roberto Maia Cidade, pai do governador Roberto Cidade, e Antonio Victor Diego Arruda Cidade, seu sobrinho. O nome da empresa sugere atuação no setor de transporte fluvial, mas ela tem acumulado contratos em diversas áreas, como transporte terrestre, fornecimento de materiais e agora aluguel de veículos, evidenciando uma versatilidade comercial incomum.
Mais de R$ 340 milhões em contratos públicos
Segundo o Portal AM1, entre 2019 e 2025, a Navegação Cidade Ltda já recebeu mais de R$ 340 milhões em recursos públicos estaduais, atuando em secretarias como Saúde (Susam), Educação (Seduc), Assistência Social (Seas) e agora Segurança Pública (SSP-AM).
Os contratos, de acordo com a apuração, em geral são firmados por adesão a atas de registro de preços, prática que reduz a exigência de novas licitações e encurta o caminho até a assinatura. A adoção sistemática dessa modalidade, aliada ao vínculo familiar dos sócios com o governador, levanta suspeitas sobre a isonomia dos processos e o cumprimento do princípio da impessoalidade na administração pública.
Ainda segundo a reportagem do G1, à época em que os primeiros contratos foram assinados, Roberto Cidade era o dono da empresa e foi quem assinou as propostas e os contratos para transporte fluvial escolar. Juntos, os valores pagos pelos cofres públicos superam R$ 50 milhões. Em 2018, ele transferiu a empresa para a família antes de assumir o mandato de deputado estadual.
MP-AM instaura investigação
De acordo com o site Rios de Notícias, o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) instaurou um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar possíveis irregularidades no contrato da SSP-AM que inclui o fornecimento de viaturas para as forças policiais.
Segundo a publicação, a investigação foi aberta após denúncias e questionamentos públicos envolvendo contratos do Governo do Amazonas e empresas ligadas à família do governador Roberto Cidade. A instauração do procedimento foi publicada no Diário Oficial do MP-AM em 10 de agosto.
O PIC é conduzido pela 61ª Promotoria Especializada no Controle Externo da Atividade Policial e Segurança Pública (61ªPROCEAP), por meio da Portaria nº 0008/2026/61ªPROCEAP. De acordo com a portaria, o PIC nº 06.2026.00000273-0 vai apurar o cumprimento e a execução de um contrato mantido pela SSP-AM. Entre os objetos está o fornecimento de viaturas para as forças de segurança do Amazonas, incluindo a Polícia Militar (PM-AM) e a Polícia Civil (PC-AM).
O objetivo do Ministério Público é reunir elementos que permitam esclarecer se houve irregularidades e se existem fundamentos para uma eventual ação penal. A abertura do procedimento não significa, por si só, que houve crime ou que pessoas ou empresas tenham sido responsabilizadas.
O MP-AM vai verificar se o contrato foi cumprido, quantas viaturas foram realmente disponibilizadas e se os pagamentos feitos pelo Estado correspondem ao serviço prestado.
Entenda o caso
O flagrante do morador não é um caso isolado. A falta de manutenção e a precariedade das viaturas alugadas vêm sendo denunciadas por policiais militares e civis há meses. O próprio MP-AM já havia instaurado, em novembro de 2024, um inquérito civil para investigar a falta de pagamento na contratação de viaturas pela SSP-AM.
A SSP-AM e o Governo do Amazonas ainda não se manifestaram para prestar esclarecimentos sobre a falha mecânica flagrada no vídeo e sobre a fiscalização dos contratos vigentes. O espaço segue aberto.
Com a repercussão do vídeo e a instauração da investigação, cresce a pressão sobre o governo estadual para que preste esclarecimentos sobre os gastos com viaturas e a qualidade dos serviços prestados à população. A reportagem continuará acompanhando os desdobramentos políticos e jurídicos do caso.


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