Política
Globo cancela debate presidencial após ausência de Lula, desistência de Flávio Bolsonaro e decisões judiciais de última hora
Emissora alegou “insegurança jurídica” e “interferência indevida” nas regras previamente acordadas; TSE proibiu púlpito vazio e STF obrigou inclusão de Renan Santos horas antes do programa, que seria o último confronto antes do primeiro turno
Arte: Canal92am
A TV Globo cancelou, na noite desta quinta-feira (1º), o debate presidencial que seria realizado após o Jornal Nacional, a três dias do primeiro turno das eleições. A decisão foi tomada após uma sequência de reviravoltas que alteraram a configuração do programa: a ausência confirmada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a desistência de última hora do senador Flávio Bolsonaro (PL) e duas decisões judiciais que modificaram as regras acordadas com as campanhas.
Em nota, a emissora afirmou que recebeu duas notificações que interferiram nas regras previamente estabelecidas e decidiu pelo cancelamento. “As sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”, declarou a Globo.
Ver esse post no Instagram
TSE proíbe púlpito vazio e perguntas direcionadas a Lula
A primeira decisão foi da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que atendeu a um pedido da coligação de Lula. A liminar proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio com o nome do presidente e impediu que os candidatos presentes formulassem perguntas direcionadas a ele durante uma das rodadas de tema livre.
A ata com as regras do debate, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, previa que, em caso de ausência, o púlpito reservado ao candidato fosse mantido vazio com uma placa de identificação, e que os demais postulantes pudessem dirigir perguntas a ele por 30 segundos.
Lula já havia comunicado à Globo que não participaria do debate e, no mesmo horário, concedeu entrevista ao Flow Podcast. Durante a entrevista, o presidente justificou a ausência afirmando que o formato com muitos candidatos é “pouco produtivo” e favorece ataques pessoais em vez de propostas.
Flávio Bolsonaro desiste e cita “censura” do TSE
Pouco depois da decisão do TSE, o senador Flávio Bolsonaro anunciou em suas redes sociais que não iria mais ao debate. O candidato do PL, que havia confirmado presença mesmo sem Lula, alegou “censura” imposta ao evento pelo Tribunal Superior Eleitoral.
“Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE”, escreveu o senador.
A campanha de Lula celebrou a desistência. “Subiu o tom e depois fugiu”, resumiu um integrante da cúpula petista.
STF obriga inclusão de Renan Santos
Horas antes do debate, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma liminar determinando a inclusão do candidato Renan Santos (Missão) no encontro. A decisão anulou um indeferimento anterior do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, que já havia negado pedido similar.
Gilmar Mendes entendeu que Renan Santos atendia a um requisito objetivo previsto no próprio regulamento do debate. A decisão, tomada cerca de duas horas antes do início do programa, foi criticada por juristas ouvidos pela imprensa. Renan Santos reagiu com surpresa: “Confuso e feliz”, declarou.
Composição do debate já havia mudado
A configuração do encontro já havia sido alterada antes das decisões de última hora. Na terça-feira (29), o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou a inclusão de Romeu Zema (Novo), após o partido questionar sua ausência e argumentar que havia alcançado o número necessário de parlamentares no Congresso para garantir participação.
Inicialmente, a Globo havia convidado Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante). Com as decisões judiciais, Zema e Renan Santos foram incorporados, mas as ausências de Lula e Flávio esvaziaram o confronto, que deixou de reunir os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas. O Datafolha divulgado na quinta-feira mostrava Lula com 42% das intenções de voto e Flávio com 38%, em empate técnico dentro da margem de erro.
Reações após o cancelamento
Entidades de imprensa criticaram as decisões judiciais, classificando-as como “intervenção judicial nas regras previamente definidas”. A Globo, em nota, manifestou “discordância com interferências nas regras acordadas”.
O cancelamento do debate encerra uma série de reviravoltas que marcaram a reta final da campanha. O primeiro turno está marcado para o próximo domingo (4), e o segundo turno, caso necessário, ocorrerá em 25 de outubro.


Faça um comentário