Economia
Novo tarifaço de Trump atinge 3 mil produtos, mas café, carne e aviões ficam de fora
Taxa de 25% entra em vigor em 22 de julho; setores como etanol, calçados e máquinas agrícolas serão prejudicados, enquanto agro comemora isenções para café solúvel, mel orgânico e tilápia.
Reprodução Instagram @whitehouse
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) confirmou nesta quarta-feira (15) a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho. A medida, resultado de uma investigação comercial baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, afeta cerca de 3 mil produtos e US$ 11 bilhões em exportações da indústria e do agronegócio brasileiro, segundo estimativas da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil).
A decisão, no entanto, veio acompanhada de uma extensa lista de isenções que inclui alguns dos principais itens da pauta exportadora brasileira. Carne bovina, café, petróleo, aeronaves e celulose ficaram fora da nova cobrança — uma vitória celebrada por setores estratégicos da economia nacional.
O que ficou isento e o que será taxado
Entre os produtos que escaparam do tarifaço estão a carne bovina fresca, refrigerada ou congelada; café solúvel e em grão; tilápia e outros pescados; mel orgânico certificado; além de frutas como abacate, manga e abacaxi. Também foram excluídos minérios como ferro, cobre e alumínio, combustíveis como petróleo bruto e biodiesel, além de medicamentos, vacinas e insumos farmacêuticos.
Por outro lado, serão taxados setores como etanol, máquinas agrícolas, vestuário, calçados, ferramentas de jardinagem, equipamentos de mineração, papel, açúcar orgânico, bens de capital e manufaturados em geral.
Setores comemoram isenções
Associações do setor de café comemoraram a decisão. Em nota conjunta, a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) afirmaram que a medida protege exportações anuais da ordem de US2bilho~esaUS 2,5 bilhões aos EUA. “O café solúvel, que não estava na lista anterior, agora foi incluído. Entendemos que essa decisão protege as exportações brasileiras e reforça a força do Brasil como maior produtor e exportador global”, diz a nota.
O setor pondera, no entanto, que uma segunda investigação do USTR, ainda em andamento, pode trazer uma nova possibilidade de tarifas de 12,5% sobre o café brasileiro.
A empresária Joelma Lambertucci de Brito, da Lambertucci Trade Solution, comemorou a inclusão do mel orgânico na lista de isentos. “Após meses de análises, consultas públicas e audiências conduzidas pela USTR, o mel orgânico brasileiro passou a integrar a lista de produtos isentos. Essa conquista reforça que a colaboração entre o setor privado e o poder público pode gerar resultados concretos para toda a cadeia do mel”, afirmou.
O que motivou a investigação
O governo Trump justifica a medida alegando que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA. Entre os pontos citados estão o sistema de pagamentos PIX, o acesso ao comércio de etanol, o desmatamento ilegal e a pirataria.
O USTR afirma que o governo Trump tentou negociar com o Brasil ao longo do último ano, mas não obteve sucesso em derrubar as práticas consideradas injustas. Integrantes do governo brasileiro, no entanto, consideram três temas como inegociáveis: o PIX, a ampliação do acesso do etanol americano ao mercado brasileiro e uma proposta de moratória de quatro anos para isentar plataformas digitais do pagamento de tributos.
Impacto limitado para o consumidor
Economistas ouvidos avaliam que o impacto do tarifaço no bolso do consumidor brasileiro deve ser limitado. Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, os danos maiores devem ocorrer nas empresas exportadoras, com perda de mercado e consequente diminuição de empregos nos setores de ferro e aço, madeira, têxtil e calçados. Para o consumidor final, no entanto, a expectativa é de que os preços não subam — pelo contrário, a experiência do ano passado sugere que produtores que perderam espaço para exportar passaram a vender mais no mercado interno, segurando os preços.
O dólar, por sua vez, fechou o dia do anúncio praticamente estável, próximo a R$ 5,08, indicando que o mercado já precificava a medida.
Trump ameaça aumento se Brasil retaliar
A tarifa de 25% entra em vigor em 22 de julho, mas não será aplicada a mercadorias que já tiverem deixado o Brasil em direção aos EUA. O governo americano afirmou que a medida poderá ser modificada ou suspensa caso o Brasil elimine as práticas questionadas.
Em um processo paralelo, a gestão Trump prevê a aplicação de uma taxa adicional de 12,5% para 60 economias, incluindo o Brasil, por supostamente não adotarem medidas suficientes para impedir a circulação de produtos fabricados com trabalho forçado. A adoção desta taxa ainda está em análise.


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