Política
Lula dá bronca em Mauro Vieira por dizer que EUA podem intervir no Brasil
Presidente classificou como “erro” documento do Itamaraty que apontava risco de ação militar americana; chanceler foi convocado pelo Congresso para explicar posicionamento.
Reprodução/Agência Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repreendeu o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, após a divulgação de um documento oficial do Itamaraty que apontava a possibilidade de uma intervenção militar dos Estados Unidos em território brasileiro. A informação foi publicada pelo Poder360, que apurou que o petista telefonou ao chanceler para demonstrar insatisfação com o episódio.
O documento foi encaminhado à Câmara dos Deputados em resposta a um requerimento do deputado Evair de Melo (Republicanos-ES). O parlamentar questionava quais seriam os impactos institucionais após o governo norte-americano classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. No texto, o Itamaraty avaliou que a decisão de Washington poderia abrir caminho para eventual uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.
Em conversa telefônica, Lula classificou o envio do texto como um erro da pasta. A avaliação do presidente também teria causado desconforto no Palácio do Planalto, entre integrantes das Forças Armadas e dentro do próprio Ministério das Relações Exteriores, diante da repercussão diplomática provocada pelo documento. Na avaliação de Lula, a análise do tema fugiu completamente das atribuições do Itamaraty.
O governo dos Estados Unidos rejeitou categoricamente a avaliação brasileira, classificando a conclusão do Itamaraty como “absurda”. Em nota, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que a legislação norte-americana sobre a classificação de organizações terroristas não prevê qualquer autorização para intervenção militar em território brasileiro. Segundo Washington, as medidas envolvem restrições financeiras, bloqueio de ativos e sanções migratórias contra integrantes e apoiadores de grupos criminosos. O Departamento de Estado relembrou que já havia negado publicamente qualquer possibilidade de ação militar no Brasil.
Nos bastidores, diplomatas afirmam que a análise apresentada pelo Itamaraty representa um “cálculo de risco”, baseado em hipóteses relacionadas à política externa norte-americana e a precedentes de operações militares realizadas em outros países.
Como desdobramento do impasse, as comissões de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal convocaram o ministro Mauro Vieira. O chanceler deverá comparecer ao Legislativo para explicar aos parlamentares os critérios e o embasamento técnico que fundamentaram o posicionamento da pasta.
O Ministério das Relações Exteriores negou, em caráter reservado, que o telefonema tenha ocorrido, embora o Poder360 tenha mantido sua apuração sobre a conversa entre o presidente e o chanceler. Nem o Itamaraty nem a Secretaria de Comunicação Social da Presidência emitiram posicionamento oficial sobre a suposta reprimenda.


Faça um comentário